quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ser humano

Quando recebi uma notificação do Google sobre a mudança do Google Docs para o Google Drive, fui ver o que eu tinha arquivado lá, e descobri o texto abaixo. Sinceramente, não me lembro exatamente do episódio que provocou em mim tamanha incredulidade, mas o fato é que hoje, felizmente, eu já não penso assim. 
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Ser humano é pensar, sentir e agir muito além do necessário para sobreviver. É ser social, é ter que interagir com outros seres humanos das mais diversas formas para atingir diversos objetivos, inclusive quando o objetivo é “não interagir“.

Prestes a completar um quarto de século de idade, acho que demorei a conhecer o lado “mau“ do ser humano. Não que eu desconhecesse essa realidade, só que nunca havia passado pela experiência da revelação pessoalmente. Depois que as pessoas revelam seu lado mau, é difícil confiar, e qualquer expressão de bondade, afeto ou amizade parece falsa.

 

O local de trabalho é um desses infernos disfarçados de paraíso. A natureza humana de fazer mais que o necessário para sobreviver aí se revela. Primeiro, vem o simples desejo de ganhar um extra, que faz com que o trabalhador se esforce mais para vender mais. Depois ele se dá conta de que a competição limita o resultado de seu esforço, e transfere parte da sua energia para derrubar os rivais, omitindo informações e sabotando aqueles trabalhos que são para o bem-comum mas que lhe trazem pouco ou nenhum benefício. O cuidado em manter a imagem de anjo é contínuo.

Eu, a princípio sem muita experiência profissional e, portanto, sem conhecimento a respeito desses inferninhos, pensei que (quase) todos eram anjos. Aqueles que desde o princípio se apresentam segurando um tridente, ou que pelo menos mantêm uma certa distância e poucas palavras, não mudam - são meros co-workers ou chefes, de cabo a rabo. Os que têm cara de anjo é que são os mais perigosos. Se fazem de amigos, às vezes até são, mas quando percebem que você pode ser uma ameaça ao seu status começam a agir silenciosamente para te derrubar.


As pessoas não vão ao trabalho para fazer amigos, por mais que no trabalho haja pessoas ótimas que seriam bons amigos. Quando os objetivos profissionais (muitas vezes anti-profissionais) interferem na relação até então amigável, pode esquecer a happy hour de sexta que a festa acabou.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Busão de Sampa - Eu, Passageira Indignada

Quem planejou não deve andar de ônibus...

Eu já comentei aqui no blog que um tempo atrás minha mãe deslocou o ombro andando de ônibus, né? Bom, para refrescar a memória: certo dia, ela estava indo pro trabalho de ônibus, segurando numa daquelas alças que ficam penduradas na barra, e o ônibus freou. Nem foi uma freada tão brusca, segundo ela, mas se você não estiver segurando firme, qualquer freada te joga pro lado. E foi o que aconteceu - ela se desequilibrou, tentou se segurar na alça, mas essas alças não são fixas, deslizam, e ela acabou torcendo o braço e deslocando o ombro.

Esse é só um exemplo de como os ônibus de São Paulo são, acima de tudo, mal planejados. O piso é tão alto que você tem que levantar a perna lá em cima para subir (cuidado com a saia, mulheres!) e pular para descer. Os que têm "piso baixo" têm degraus dentro do ônibus, então você tem que subir e descer de qualquer jeito para chegar ao fundo. Além disso, onde o piso é baixo a barra é tão alta que ninguém alcança. E ninguém gosta de ficar onde não dá para se segurar, né? Aí fica aquele vazio no meio do ônibus enquanto um monte de gente se espreme na parte da frente e ninguém consegue passar a catraca...

Ventilação = abrir as janelas. Esse sistema funciona muito bem. Quando não está chovendo. Imagine um ônibus lotado num dia de verão. Já é super quente, né? Daí começa aquela chuva grossa e todo mundo fecha as janelas, que logo começam a embaçar. Chega a ser desumano ter que ficar nessas condições, ainda mais de pé, sem ter em que se segurar, por sabe-se lá quanto tempo até o destino final. Isso se no caminho não tiver um alagamento e o ônibus tiver que desviar a rota bem antes do seu ponto!


Corredor que não corre

Esse corredor de ônibus pode ter sido uma boa ideia com boas intenções, mas de boas intenções o inferno tá cheio. E os paulistanos também estão cheios dessas obras cabeludas que mudam a cidade e nunca resolvem esse mal que é o trânsito. O corredor foi feito para dar passagem aos ônibus em detrimento dos carros e agilizar o transporte público. No entanto, o que eu vejo todo santo dia ali no Eldorado e na Faria Lima em horários de pico é uma fila de ônibus parados enquanto os carros trafegam muito mais livremente nas outras faixas.

No ponto da Faria Lima a causa é óbvia: o semáforo. O ônibus para no ponto, os passageiros descem, sobem e, quando o ônibus está pronto para partir, adivinhem? O semáforo está vermelho! Consequentemente, o ônibus não pode partir e os ônibus de trás não podem pegar os passageiros que esperam no ponto, tendo que esperar o semáforo abrir. Aí enquanto o semáforo está verde, outro ônibus está parado no ponto e quando ele vai partir, fecha de novo e vira uma porcaria só. Quanta perda de tempo!

Já no ponto do shopping Eldorado, a culpa é dos próprios passageiros. Sim, é uma tremenda falta de conscientização e bom senso. Um único ônibus fica parado 5 minutos no ponto esperando os passageiros entrarem para poder fechar a porta. Os que estão dentro do ônibus não abrem espaço para mais gente entrar; os que obstruem a porta ficam esperando a boa vontade dos de dentro; os que estão fora não arrredam pé, querendo pegar aquele ônibus de qualquer jeito. O que eles não pensam (ou não querem saber) é que, nesses 5 minutos, outro ônibus menos lotado já teria chegado. Esses 5 minutos de atraso criado por algumas pessoas são para todos - os que já estavam no ônibus, os que querem subir, e os passageiros dos ônibus de trás, que estão na fila do corredor que não anda. É cada um querendo garantir o seu, sem pensar que estão atrasando todo mundo, inclusive a si próprios.

Alguns centavos
para a educação

Dia 5 de janeiro a tarifa do ônibus passou de R$2,70 para R$3,00, um reajuste maior que a inflação e um preço alto demais para um sistema tão precário. Se nós somos obrigados a pagar, então que justifiquem esse aumento investindo em melhorias nos veículos, nas vias, remuneração e treinamento de motoristas e cobradores e, principalmente, na conscientização dos passageiros, que é praticamente inexistente.

Dentro dos ônibus pode-se ver uns cartazes pedindo aos passageiros que não consumam alimentos e bebidas, pois isso pode atrair insetos. Eles deveriam mencionar também que comer dentro do ônibus em movimento pode causar enjôos... como uma menina que vomitou no meu sapato... argh. Ela não devia ter mais de 3 anos de idade; estava sentada no colo da mãe, devorando um pacotinho de Fandangos às 10h da manhã. Pedagogia e nutrição à parte, enfim, a pobrezinha vomitou, duas vezes, perto da catraca. E aí uns desavisados que entravam no ônibus iam pisando naquilo sem perceber e espalhando a sujeira, e o cheiro... Gente, um nojo. E não tinha como limpar até chegar ao ponto final, porque no ônibus não tinha nem água, nem jornal, nada. Dá para viajar nessas condições? E agora nós temos que pagar R$3,00 por isso!

Por que o metrô, que custa R$2,65, parece coisa de outro mundo comparado aos ônibus de São Paulo? Por que as pessoas que andam de metrô são mais "civilizadas" que os passageiros de ônibus? Eu acho que a conscientização dos usuários responde por grande parte disso. Claro que o metrô, sendo uma rede limitada sob administração centralizada, é muito mais fácil de se controlar e fiscalizar. Mas os ônibus municipais também já estão muito mais unificados e organizados que alguns anos atrás, quando havia ônibus clandestinos e greves constantes. Com a formação de motoristas e cobradores que ajam como fiscais, é possível sim educar os passageiros de forma a conservar melhor os veículos e agilizar as paradas nos pontos. Mas é preciso destinar alguns daqueles R$0,30 para isso.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Golpe Microcamp - UMES

Faz mais ou menos um mês, ligaram em casa e minha mãe atendeu. Minha mãe estava de licença médica por ter deslocado o ombro graças àquela alça que tem nos ônibus, sabe? É, serve para segurar, mas não não tem segurança nenhuma. Mas a ligação nãe era para ela, era para mim. Disseram que era sobre um benefício da UMES e que mais informações só poderiam ser dadas pessoalmente. Deixaram um telefone de contato e pediram que eu retornasse.

Minha mãe me ligou no trabalho e me deu o recado. Eu fiquei curiosa e liguei.
- Central de atendimento.
- De onde fala?
- É da UMES.
- Posso falar com a Rafaela (acho que era esse o nome)?
- É ela.
- Me pediram para retornar para esse número, sobre um benefício da UMES.
- Ah, sim, qual o seu nome?
- (Meu nome)
- Sim, sra, a UMES sorteou alunos e ex-alunos para estarem recebendo uma bolsa no valor de R$200,00 mensais por até 2 anos para ser utilizada em um curso de qualificação profissional. Por que a senhora nunca entrou em contato para receber esse benefício?
- Como assim nunca entrei em contato? Ninguém nunca me falou nada.
- Ah, é? Bom, senhora, na verdade o prazo para receber termina amanhã (sexta), e a senhora tem que comparecer pessoalmente, tá? O endereço é na Rua Butantã, 77. Que horas a senhora pode comparecer?
- Eu não posso por causa do trabalho.
- Bom, nós vamos abrir uma exceção para as pessoas que trabalham como a senhora, estarem comparecendo no sábado. Que horas a senhora pode comparecer?
- Hum... umas 14h.
- Ok, sra, então eu vou estar deslocando [sic] o fiscal Daniel (não lembro o nome) para atendê-la. Então, por favor não chegue atrasada, tá, porque o fiscal Daniel vai estar esperando a senhora até as 14h.
- Ok.

Cheguei em casa e procurei o número de telefone e o endereço no Google, junto com as palavras "UMES", "bolsa qualificação profissional", e qual não foi minha surpresa ao ver que aquilo, afinal, não passava de uma grande enganação! O endereço era da Microcamp de Pinheiros. E olha que eu passo lá todo dia de ônibus.



No site da UMES realmente é mencionado um convênio entre a UMES e a Microcamp, mas ligar da Microcamp se identificando como UMES e oferecer uma "bolsa de qualificação profissional" que não passa de um desconto virtual em cursos da própria Microcamp... isso é G-O-L-P-E!

Um post do blog Boteco Sujo mostra uma apuração interessantíssima dessa estratégia maldosa da Microcamp.

Bom, continuando o meu relato, eu resolvi não perder meu tempo e não compareci à Microcamp, ops, à "UMES da rua Butantã" às 14h do sábado. Daí, às 14:15 ligam na minha casa e eu atendo. A tal da Rafaela já começa a conversa em tom de bully, como se EU fosse a errada na história.
- A senhora não compareceu aqui no horário agendado, posso saber o motivo?
- Olha, eu vi na internet que isso é propaganda enganosa e resolvi não ir. Eu passo aí todo dia e sei que o endereço é da Microcamp, não da UMES.
- A nossa sede fica em outro endereço, mas esse endereço da rua Butantã é somente o local onde o representante faz o atendimento, entendeu? Olha, nós deslocamos o fiscal Daniel só para atender a senhora e a senhora não compareceu.
- Tá, desculpa, mas de qualquer maneira eu não vou ter tempo de fazer nenhum curso de qualificação profissional então eu abro mão da bolsa.
- Tá bom, obrigada.

Caso encerrado. Ou pelo menos eu achava que estava. Até hoje de manhã, quando alguém me liga dizendo que é da UMES e pergunta logo de cara:
- Por qual motivo a senhora não compareceu no atendimento agendado?
- Eu já falei com uma das suas atendentes. Já falei os meus motivos.
- Mas qual o motivo? (já me deixou nervosa...)
- Olha, eu vi na internet que isso é propaganda enganosa e resolvi não ir!
- Senhora, o que a gente faz é um trabalho sério!
- Tá, mas é meu direito achar que é propaganda enganosa e não querer ir, não é?
- Senhora, ...
- Eu fui no endereço que me passaram e não era da UMES, era da Microcamp, não é?
- Olha,..
- Eu liguei na UMES (na verdade não tinha ligado) e me disseram que essa bolsa não existe!
- ... Aguarda um instante, senhora.

Desliguei. Que mané aguardar um instante para ficar ouvindo mais ladainha! Não sei por que eles se dão ao trabalho de insistir com alguém que já tinha descoberto que tudo não passava de um golpe.

Ainda bem que eu não cheguei a ser enganada. Mas eu vou entrar em contato com a UMES para perguntar o que ELES pensam dessa política da Microcamp e o que pretendem (ou se pretendem) fazer a respeito. Se eles têm um convênio com a Microcamp, não podem alegar indiferença e tirar o corpo fora. A UMES tem a obrigação de esclarecer em seu site o conteúdo do convênio e deixar bem claro que essa tal bolsa não existe. Se não quem vai acabar perdendo a credibilidade são eles.

Ai, se essa gentinha da Microcamp de Pinheiros me liga outra vez... Acho que aí sim, "eu estarei comparecendo", sem agendamento mesmo, para falar com algum fiscal deslocado.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Bali para dois+

Dia 12 de abril eu fui para Bali, Indonésia, e passei 3 dias e 3 noites lá. Era para ter sido uma super viagem, que eu já queria fazer havia muito tempo. Já tinha planejado essa viagem duas vezes, com pessoas diferentes, mas por motivos de trabalho etc. teve que ser cancelada, e dessa vez, como da vez que fui pro Havaí, tive que ir sozinha. Mas aí é que está o problema: Bali não é um lugar para ir sozinhA.

Quem não gosta de viajar desacompanhado irá dizer que nenhum lugar é bom quando se vai sozinho. Eu concordo parcialmente, já que a minha primeira viagem sozinha, para o Havaí, foi uma ótima experiência. E é exatamente por isso que eu me acho qualificada para dizer: não vá para Bali sozinhA! Se você for homem, talvez não seja ruim, você pode até ¨se dar bem¨, no sentido masculino da expressão. Mas uma mulher nas ruas de Kuta e Legian, as áreas mais lotadas de Bali, é como um peixe nadando no meio dos tubarões. E eu não digo somente no sentido de ser escaneada e xavecada pelos tiozinhos locais, mas também por se tornar mais vulnerável ao assédio dos vendedores, motoristas de táxi informais e locadores de motos que ficam posicionados a cada metro ou menos das ruas principais. Tudo isso me deixou tão estressada que acabou estragando meu passeio. Mas eu aindo quero voltar para lá, com mais tempo, dinheiro (o meu acabou antes do esperado) e acompanhada.

Como eu me limitei à área mais urbana da ilha, só sei através dos guias de viagem que no norte e centro de Bali pode-se ter contato com a natureza, passear montado num elefante e visitar as plantações em terraços, além de poder mergulhar e fazer outros esportes marítimos. Vi também nos sites de hotéis o que é um verdadeiro ¨asian resort¨, completamente distinto do modesto, úmido e barulhento budget hotel em que me hospedei...

Resumindo, eu estava no lugar certo, nas condições erradas e, principalmente, na companhia errada: eu mesma. Se teve algo de bom? Claro! Boa comida, boas compras, táxi barato, muito sol e nada de chuva e, exceto pelos tiozinhos, o povo de lá é gente finíssima.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Japão egocêntrico

Depois de tanto tempo no Japão, agora que eu estou indo embora, chegou a hora de falar umas poucas e boas. Não considero isso uma covardia do tipo "bate e corre". O fato é que se eu ficasse pensando em todas as coisas ruins que existem nessa sociedade, eu não teria aguentado viver aqui por tanto tempo.

Aos que pensam em vir para cá a passeio: recomendo, vale a pena, principalmente para quem tem um pouco de folga no bolso, o Japão é um país que tem muito a oferecer como ponto turístico.

Por que eu acho que não é um bom país para se viver, vai levar alguns posts para falar. Vamos começar com o egocentrismo, que se vê nos indivíduos e no país como um todo.

Muita gente tem uma imagem do povo japonês como sendo muito educado, polido, o que não deixa de ser verdade. Quando a ocasião pede (obriga, ou faz conveniente), os japoneses utilizam um vocabulário próprio - keigo - que serve para se dirigir a pessoas que estão em posição superior; por exemplo, pessoas mais velhas, professores, clientes, chefes etc. Mas mesmo que a forma seja bonita e expresse respeito, o conteúdo pode dizer exatamente o contrário, e daí vira uma hipocrisia só. Saindo dessa esfera, imagine um cenário bem típico onde todo mundo é teoricamente igual: os trens japoneses na hora do rush (já devem ter ouvido falar). Nessa luta pela sobrevivência - que significa não chegar atrasado para não levar uma comida de rabo do chefe, ou chegar super cedo para ganhar uns pontos -, é cada um por si. Se não dá para sentar, o próximo alvo são as argolas penduradas do teto para poder se segurar. Só que perto das portas não há argolas nem nada para segurar, além de ter que sair e entrar do trem seguindo o fluxo de pessoas a cada estação - ou seja, perto das portas é o pior lugar. Por incrível que pareça, em vez de ir mais pra dentro, onde geralmente tem mais espaço e fica mais fácil se segurar, as pessoas empacam por ali mesmo. Por quê? Porque ninguém tem coragem (ou sei lá o que é preciso) de pedir uma licença ou ir se enfiando. Por isso perto da porta as pessoas vão sendo esmagadas (isso dói de verdade) porque uns bananas espaçosos não querem dar uma apertada, e outros bananas passivos não querem dar uma empurrada. Ninguém pensa nos outros.

Com a mais alta expectativa de vida do mundo, o Japão é um país idoso. Para ser "velhinho" aqui, tem que parecer muito velho mesmo, porque umas rugas e cabelos brancos não vão dar direito a um assento preferencial no trem. Essa seria uma boa desculpa para explicar os velhinhos de pé dentro do trem. Mas não são só os velhinhos, são as gestantes também. Com uma das menores taxas de natalidade, não é o excesso de gestantes que faz algumas delas ter que ficar de pé no trem. Uma olhadinha no assento preferencial e o que você vê: jovens e adultos aparentemente saudáveis...dormindo. Ou fingindo que estão dormindo para não cederem o lugar. Quando se trata desse tipo de falta de educação, as pessoas em volta não falam nada, não condenam. Mas eu já presenciei e ouvi falar de vários casos de estrangeiros que levaram bronca de japoneses mal-humorados por falar alto (ou seria por falar em uma língua que eles não entendem?). Aliás, nesses casos eles não pedem para falar baixo, eles simplesmente mandam calar a boca ou algo do tipo.

Essa xenofobia/hipocrisia, hoje em dia muito bem disfarçada pelos esforços do governo em trazer estudantes estrangeiros (como eu) pras universidades e professores de inglês pras escolas públicas japonesas, é atribuída por muitos ao fato do Japão ser um arquipélago relativamente isolado do continente e de outras ilhas. Até que ponto isso é verdade eu não sei. Mas a falta de conhecimento e contato com outros países e culturas é notável aqui. Além disso, como os japoneses são compostos de praticamente uma única etnia, estrangeiros e japoneses "mix" não passam despercebidos. Se só isso já faz os estrangeiros se sentirem peixes fora d'água, adicione-se uma legislação que praticamente impossibilita um estrangeiro "puro" - ou seja, sem sangue japonês nem casado com um(a) - de virar japonês, mesmo nascido e criado aqui.

Será que essa aura de "segunda maior economia do mundo" que se fixou na sociedade japonesa a deixou numa posição tão confortável que eles simplesmente decidiram que estava tudo perfeito do jeito que estava? Os brasileiros vieram em massa, foram mandados embora aos montes, "cumpriram seu papel" nas fábricas mas, com exceção de pouquíssimos, não ganharam nada além de dinheiro. Pro Japão parece que foi o ideal, já que brasileiro que não fala japonês e não dá lucro só dá trabalho. Mas pensando na população ativa japonesa, aqueles que (mais importante!) sustentam o sistema previdenciário, o governo deveria tratar a questão da imigração com mais seriedade e não como um simples tapa-buraco temporário. Não há maneira de sustentar a futura população de aposentados sem aumentar a população ativa, mas se for depender da boa vontade dos japoneses de fazerem filhinhos, acho que vai ser tarde demais.
Quem sabe daqui para frente - a começar esse ano, quando será ultrapassado pela China - o Japão se dá conta que não é só dinheiro que faz um país crescer? Que não basta criar novas tecnologias se as instituições que sustentam a sociedade continuam paradas no tempo? Eu estarei vendo de fora.

domingo, 3 de janeiro de 2010

2010

Feliz 2010!
Finalmente chegou o ano da grande virada. Acho que nem preciso fazer promessas de ano novo, porque algumas decisões terão que ser feitas de qualquer jeito e não dá pra deixar pro ano que vem.

Ano passado foi um ótimo ano. Novo trabalho, novas pessoas e novas experiências. Definitivamente melhor que 2008.

A virada foi legal, com amigos e o namorado numa balada em Shibuya. Lá pelas 3h e pouco saímos e fomos comer, depois voltamos (dia 31 os trens funcionam a noite toda) com a intenção de ir no templo fazer hatsumoude (a primeira visita/prece do ano). Mas no fim estávamos tão cansados e com tanto frio que fomos direto pra casa dormir. O hatsumoude, meu primeiro e provavelmente último em 7 anos de Japão, acabou ficando para hoje. No templo, muita gente supersticiosa jogando moedas para os deuses e comprando omikuji (papeizinhos sorteados que prevêem a sorte). Minha sorte: ótima :)

A partir de amanhã é voltar pro batente, começar a desmontar a casa, renovar o guarda-roupa e esperar pelas próximas férias. Alguém na TV disse outro dia que os franceses trabalham para tirar férias, enquanto os japoneses trabalham por trabalhar e se sentem culpados e inseguros em tirar férias longas. Daqui pra frente, eu não pretendo abrir mão dos meus 30 dias.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Virando criança... e vovozinha?

Apesar de ter ido 3 vezes na Universal Studios Japan em Osaka, eu nunca tinha ido na Tokyo Disneyland. Dia 5 eu fui. Mas não na "Disneyland" e sim na "Disney Sea", que é um parque anexo aa Disneyland e faz parte do complexo Tokyo Disney Resort.
A média da população japonesa já é meio "jovem" psicologicamente, chegando muitas vezes a ser infantil. Se pessoas normais, como eu (pelo menos eu me considero), viram crianças por um dia dentro de um parque desses, imaginem os japoneses, que são fãs de coisas bonitinhas e personagens de desenho animado. Parecia um Halloween. Todo mundo com orelhinha de Mickey/Minnie (eu também!!), ou Pato Donald, Stitch etc etc etc. No fim da tarde começou a chover e daí surgiram uns vestidos com capa de chuva do Mickey (com orelhinha no capuz e tudo).

Obviamente é um grande shopping center além de parque de diversões. Você acaba gastando, mesmo sem querer. Mas é divertidíssimo. Não é nem tanto pela adrelina dos brinquedos, porque fora a Torre do Terror, que é aquele elevador que despenca, tem uma mini-montanha-russa com um looping e o resto é super tranquilo. Mas toda a decoração, o cenário, é como se você estivesse dentro de um filme. Exceto pelo frio, a chuva e a dor nas pernas, quase dá pra esquecer do mundo real lá fora.

Falando em dor nas pernas, desde de antes de ir na Disney eu já estava sentindo uma dor na coluna que eu nunca tinha tido antes. Fiquei aguentando por umas 2 semanas até que resolvi ir no massagista, também pela primeira vez na vida. Meio caro (50 dólares por 40 min) mas uau... vale a pena. Infelizmente não resolveu o problema pela raiz porque aquilo era resultado de muito tempo de má postura. Fui lá gastar mais 20 numa almofada para deixar na cadeira da firma, onde já se encontra pendurado meu xale para quando o ar condicionado está muito frio. Para completar, comecei a tricotar. Confesso que é muito bom ter um hobby (mais um) que não exige raciocínio. O tempo passa rapidinho... e no fim eu percebo que estou com dor nos ombros. Assim não dá... tô velha.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Quando é chegada a hora. Mas quando?

Ontem, depois que terminei de postar, descobri que havia um rascunho não publicado, que eu tinha começado a escrever no dia 19 de junho de 2008. Entre aspas vão as palavras escritas na época.


"No último dia 15 minha avó materna se foi. Ela havia sido internada, passou por um período crítico e melhorou, tanto que todos esperavam que ela fosse sair logo do hospital. Eu também esperava, mas quando atendi o telefone aquela noite e ouvi a voz da minha mãe, já sabia o que estava por vir. Ela disse "Ilka, a batchan (vó)..." e eu, não querendo admitir, perguntei "o quê??" Mesmo depois de ouvir a dura verdade, eu continuei perguntando "mas como?", "onde você tá agora?", "onde ela vai ser enterrada?" Levou algum tempo até a ficha cair e as lágrimas também.
Ninguém vive para sempre e"

Já faz muito tempo, e eu não me lembro exatamente do que eu quis dizer então, mas acho que devia ser algo do tipo: ninguém vive para sempre e, depois de uma certa idade, a morte é algo já esperado. Mesmo assim, sempre acreditamos que haverá um amanhã. Um amanhã para dizer tchau, para perguntar alguma coisa, para para pedir desculpas, agradecer, perdoar, fazer as pazes. Esse amanhã não veio, e eu aqui do outro lado do mundo vi os dias passando e a memória dela parada no tempo. Não consegui dizer adeus, nem com palavras, nem com a minha presença, nem com flores e nem com cerimônias. Não chega a ser um arrependimento, mas o fato é que sem me despedir fica difícil superar, e as lágrimas ameaçam sair sempre que eu me recordo.

Esse tipo de experiência é que inspira aquelas frases "não deixe para amanhã o que pode fazer hoje", "viva cada dia como se fosse o último" etc. É, seria o ideal, mas quase ninguém faz isso. Primeiro, porque a vida que nós levamos é feita de hojes e amanhãs, de planos a curto e longo prazo, esperanças, expectativas e previsões. Construir uma família nada mais é do que acreditar no futuro. Além disso, ficar esperando a morte para si mesmo ou para "o próximo" não me parece muito legal... No fim, o que importa é que aqueles que ficam têm que dar a volta por cima. Os que foram... já não estão.

domingo, 8 de novembro de 2009

Contagem regressiva e Cirque Du Soleil

Esse blog, apesar dos longos intervalos de silêncio entre posts, foi um "diário", um espaço de relatos da minha vida no Japão. Foi? Por enquanto ainda é, mas está com seus dias contados.
A história "7 anos no Japão" logo chegará ao seu fim. Até lá, para despedir-me dignamente, vou tentar escrever mais. Vai servir como reabilitação do idioma, seriamente danificado ao longo desses anos.

Dia 6, sexta passada, fui ao Cirque Du Soleil. Eu já tinha ido uma vez ao espetáculo Alegria em Osaka, mas o assento não podia ser pior, longe do palco e com uma viga obstruindo a visão.
Dessa vez fui ao espetáculo Corteo. Com menos assentos, sem vigas e com um palco central giratório, a visão era ótima. No Cirque Du Soleil, não há nenhum movimento que possa ser perdido, tudo pode ser considerado performance, arte. A música, tocada e cantada ao vivo, é perfeitamente sincronizada com as performances, e entre as atrações não existe tempo perdido, sempre um pequeno teatro, artistas que simplesmente atravessam o palco fazendo piruetas, anjos que descem do céu (teto)... Na verdade tudo é interligado pelo tema central: a partida do personagem principal para o céu, passando por um longo sonho que relembra a sua infância e seus amigos.

Enfim, não sou muito boa para fazer esse tipo de descrições. Mas uma coisa posso afirmar com absoluta certeza: se alguma vez na vida você tiver a oportunidade de ir ao Cirque Du Soleil, não deixe passar, porque vale muito a pena. Se você não gostava de "circo" quando era criança, esqueça o significado que essa palavra tinha até agora, porque esse espetáculo é teatro, música, dança, comédia, ginástica olímpica, tudo junto.
Particularmente, acho que esse é um espetáculo para adultos, para que nos lembremos de quando éramos crianças. Eu fiquei o tempo todo boquiaberta e de vez em quando colocava a mão na boca, incrédula de que aquelas pessoas ali no palco eram humanos como eu, com um certo medo de que elas fossem cair.
Fiquei pensando qual a diferença entre esses artistas e atletas profissionais, por que eles não competem nas olimpíadas. Deve ser porque os atletas têm como objetivo a vitória, e os artistas de circo estão buscando o reconhecimento do público, nada de pontos nem notas, nada de regras. É bonito ver que, apesar de toda a tecnologia que existe hoje em dia, nada substitui a emoção que um ser humano pode causar usando nada mais que o seu próprio corpo e uma mente artística.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Apagão

Desde quando começamos a usar a palavra apagão em vez de blecaute? Eu sempre gostei mais de blecaute, blackout. Da palavra, não do "fenômeno" em si.
Hoje, pela primeira vez desde que vim pro Japão, passei por um blecaute. E não foi uma coisa rápida, não; durou quase duas horas, logo depois do almoço. Não era dia de chuva, não estavam fazendo manutenção da rede elétrica, e o mais estranho é que havia eletricidade nas quadras vizinhas e em alguns estabelecimentos na mesma quadra... hum... nada de mais pra quem veio de um país onde isso é tão comum que usar estabilizador pro computador é praticamente obrigatório. (Aqui não existe tal parafernália)
Confesso que foi um pouco emocionante, e eu estava torcendo para que a luz não voltasse e fosse declarado fim de expediente, assim nós sairíamos mais cedo pra tomar uma cervejinha. Acho que se alguém me viu quando as luzes se acenderam, deve ter visto uma cara não de alívio, mas de clara e iluminada decepção.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Shake & Squeeze

Tinha acabado de ir pra cama quando começou a tremer. Era mais ou menos 1 da manhã. Desde que cheguei a Tokyo já tinha sentido alguns tremores, que logo passaram. Nesse tempo me convenci de que esses leves balanços seriam coisa do dia-a-dia. Enganei-me. Balanços maiores estavam por vir, como foi ontem de madrugada. Não foi nada muito forte; grau 3 é algo a que os moradores de Tokyo parecem estar bem acostumados. Mas foi longo... não sei se foram segundos, pois para mim pareceram pelo menos dois minutos. Eu esperei parar, não parava, então eu pus meus óculos, acendi a luz, fui em direção à porta, calcei minhas pantufas, acordei o Thi, disse para ele que queria sair do prédio, ele hesitou, e foi quando ele finalmente alcançou a porta que o tremor parou. Essa foi a primeira vez. Houve mais um ou dois balanços que passaram logo até vir o maior, às 2 da manhã.
O barulho do prédio tremendo foi o que me assustou mais, e dessa vez eu não dei tempo pra sorte. Pensei em entrar debaixo da mesa da cozinha mas resolvi descer até o primeiro andar. Quando chegamos havia mais uma moradora assustada. Depois desse não houve mais tremores. Mas deu para ter uma idéia do que está ainda por vir.
Para piorar essa infeliz idéia da vida em Tokyo, hoje de manhã eu peguei o metrô lotado como nunca antes. Quase fui esmagada contra a barra de ferro, e também quase tive uma cãibra no braço por culpa do contorcionismo. Que sufoco!

domingo, 4 de maio de 2008

Copeira

Além de telefonista, eu também sou copeira. O salário, entretanto, não sobe. Aliás, tá bem, bem baixo. Nas empresas japonesas não é muito comum ter funcionários que se dedicam exclusivamente à limpeza ou a assuntos de cozinha. Todos ajudam a limpar, tirar o lixo, fazer café etc. No prédio onde trabalho há uma senhora responsável pela limpeza dos banheiros de todos os andares, mas ela é funcionária do prédio e não da empresa.

Minha tarefa, além de limpar minha própria mesa, como devem fazer todos os funcionários, é limpar a mesa da chefe, as pias e o espelho do banheiro feminino, servir cafezinho pros clientes e checar a cozinha de vez em quando. Nós temos uma cafeteira italiana ótima que prepara um espresso bem parecido ao cafezinho brasileiro, xícaras de porcelana Schmidt e açúcar União. Tudo pro cliente se sentir no Brasil... acho. Mas nós os funcionários tomamos café estilo americano, mais aguado, suficiente pra encher uma caneca, e que obviamente dura mais que um cafezinho.

O movimento na cozinha é grande. Movimento é força de expressão, já que a cozinha é tão apertada que se movimentar por ali é difícil. Infelizmente devido à minha falta de noção espacial eu não posso nem chutar quantos metros quadrados tem o cubículo que inclui a cozinha, os armários e o corredor pro banheiro, mas é tudo bem apertado, considerando também que há caixas de papelão amontoadas em todos os cantos. A gente vai passando pedindo licença e desculpas, deixa a caneca na cafeteira e só volta depois do café pronto porque não tem espaço para ficar esperando. Quando o movimento parece estar tranquilo, eu vou ver se não falta água ou café na cafeteira, açúcar nos açucareiros, gelo no congelador, tudo que soe assim redundante. Isso me ajuda a passar o tempo quando não tenho o que fazer e me salva de atender o telefone. E o café me mantém acordada.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Telefonista

Em abril comecei a trabalhar numa agência de viagens especializada na América do Sul. Apesar de ser brasileira e falar espanhol, eu tenho que trabalhar junto com os japoneses e atender aos telefonemas em japonês. Essa é a parte que eu menos gosto. Geralmente os japoneses se identificam logo no início da ligação, dizendo o nome da empresa em que trabalham e o próprio sobrenome, para que a pessoa do outro lado da linha não precise perguntar e possa transferir a ligação rapidamente. Não é o meu caso, já que eu quase nunca entendo o que eles dizem de primeira, salvo pelas pessoas que ligam com uma certa frequência. Então eu pergunto de novo, eles respondem, eu repito com um ? e eles corrigem, daí eu repito com um né? e aí sim posso transferir.

No Brasil eu sempre tinha que soletrar meu sobrenome porque ninguém entendia de primeira, e confesso que não gostava muito disso. Agora eu imagino a reação das pessoas que eu atendo. Elas devem se sentir indignadas... principalmente aquelas cujos sobrenomes dão em árvores aqui no Japão, equivalentes a Silva, Santos, Oliveira, etc. A probabilidade de alguém errar um nome desses é muito pequena, a não ser que ele(a) seja estrangeiro(a). :p

O pior é que, como novata, está pressuposto/subentendido que eu não tenho muito o que fazer e, portanto, é meu dever atender o telefone quando ele está tocando sem parar e todo mundo parece ter ficado surdo. É um alívio enorme quando algum brasileiro ou hispanohablante liga por engano na nossa linha (que é separada do atendimento em Português e Espanhol) e eu posso falar sem medo. Acho que vou ficar com trauma de telefone... isso porque eu já não sou muito fã. Prefiro os e-mails. Devo estar enerdeando cada vez mais. E considerando que adquirir algumas línguas estrangeiras tem como efeito colateral o esquecimento das outras, minha capacidade de comunicação está seriamente danificada. De repente o trabalho de "telefonista" sirva como uma terapia de choque.

terça-feira, 18 de março de 2008

Últimas

É... agora sim eu sinto o fim. Dia 25 é a minha formatura e dia 28 eu me mudo para Tokyo. Faltam poucos dias na minha vida de estudante, poucos dias na cidade de Kobe, poucos dias morando sozinha num apartamento gigantesco numa área residencial na montanha. Daqui a menos de 2 semanas eu vou estar num apartamento menor, bem mais caro, com mais uma pessoa, a 5 minutos da estação de metrô, a 20 minutos do centro de Tokyo.
Dá um pouco de tristeza ter que deixar esse apartamento que me fez sentir tão em casa, tão à vontade, mas ao mesmo tempo eu vou voltar pra cidade grande, rever amigos, começar uma vida nova. Hoje eu recebi a resposta de uma entrevista que fui fazer em Tokyo semana passada. Vou trabalhar numa agência de viagens, como eu queria. ^^

Essa será a terceira vez que eu me mudo, e a quantidade de coisas só aumenta a cada mudança. Mas dessa vez não vai dar para levar tudo. A primeira empresa de mudança que veio aqui em casa fazer um orçamento disse que para levar tudo ia custar uns 270 mil ienes (2700 dólares). Então eu decidi vender alguns móveis. Que decepção... Liguei para várias lojas, mas nenhuma delas comprava o tipo de móveis que eu tenho. Muito pelo contrário, elas cobravam para retirar os móveis e se livrar deles para mim. Aqui é assim:
1) Jogam-se fora móveis e eletrodomésticos, bicicletas e motos etc., mesmo em bom estado
2) Uma vez por mês a prefeitura coleta os móveis e eletros de pequeno porte
3) Quanto aos móveis grandes e bicicletas, pode-se ligar pra prefeitura e pedir pra que eles venham recolher de graça
4) Para jogar geladeiras, televisores, computadores etc., é necessário pagar uma taxa (25 a 50 dólares) de reciclagem, e pedir para alguma empresa de coleta ou pro fabricante para retirar o "lixo"
5) É difícil vender coisas usadas, mas existem várias lojas de coisas usadas (Recycle shops), ou seja, eles vendem o que conseguiram de graça, ou pior, recebem dinheiro de quem joga fora e também de quem compra

No fim eu vou gastar uns mil dólares para carregar minhas tralhas, menos a mesa do computador, aspirador, ventilador, mesinha da sala, cadeira giratória de couro (que dó, eu sei...), sofá, prateleiras, muitas roupas e sapatos. Vou levar comigo a lição de que viver no Japão é perigoso, anti-ecológico, caro e irracional.

terça-feira, 4 de março de 2008

Velhice

Ontem na estação de Osaka, enquanto eu esperava pelo trem parou uma senhora perto de mim, um pouco à minha frente, de forma que eu a via de costas. Ela usava um gorro preto, mas dava para ver os cachos grisalhos que cobriam sua nuca. Aquele gorro... tinha algo de estranho, parecia de lã mas era mais brilhante. Foi quando consegui ver a senhora de perfil que percebi o que os meus olhos não queriam acreditar - o gorro era, na verdade, uma peruca! Da pior qualidade, diga-se de passagem. A razão pela qual os cachos grisalhos estavam completamente descobertos pela tentativa de peruca não se sabe. Poderia ser a falta de cuidado da senhora, uma vaidade bem intencionada mas mal realizada, simples esquecimento ou confusão. O fato é que a visão que se tinha era ao mesmo tempo triste e ridícula.
Não foi a primeira vez que eu me deparei com uma dessas senhoras idosas usando acessórios um tanto "incomuns". Mas ontem, depois de me pegar boquiaberta encarando a espantosa peruca, eu pensei sobre a velhice. Será que quando eu ficar velhinha vão me chamar de cafona e careta? Ou pior, será que se eu tentar me manter atualizada, vão dizer que eu sou ridícula? Logo vou fazer 24 anos, o que ainda é pouco. Né? Mas às vezes me preocupo com o futuro distante. OK, antes de pensar na aposentadoria eu primeiro preciso de um emprego, e antes de pensar em netos eu tenho que ter filhos. Mas para me aposentar eu preciso começar a pagar impostos agora, e para ter uma família eu preciso de (pelo menos quero) uma certa estabilidade econômica.
Outra grande preocupação, acreditem, são as rugas. Com certeza eu estou sendo superinfluenciada pela poderosa indústria de cosméticos japonesa, além de ver japonesas quarentonas super conservadas aos montes. Mas o pior é quando me chamam de "senhora"... =( Daí eu me lembro daquela ruguinha precoce e desenterro um pote de creme para aliviar a consciência. Infelizmente os cremes anti-rugas aqui no Japão são para velhas a partir de 25 anos.
Alta expectativa de vida é sinal de melhor qualidade de vida, pra humanidade, pra sociedade. Mas individualmente falando, nem sempre é assim. Sim, hoje em dia se é muito mais saudável aos 60 do que se era há algumas décadas, mas o sistema previdenciário não mudou tanto assim, e a aposentadoria chega cedo demais para pessoas que ainda podem trabalhar. Passam-se os anos, a saúde se torna mais frágil, e nessas horas em que não se pode cuidar de si mesmo, alguém tem que fazê-lo: a família, enfermeiros, o hospital, um asilo. Acho que o pior da velhice é a solidão. É isso que tem levado muitos idosos a querer se aposentar definitivamente dessa vida. Pensando nisso, ter um motivo para se enfeitar com uma peruca e poder sair de casa sozinha(o) é um bom sinal.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Alguma coisa acontece no meu coração...

Ontem eu vi as fotos que a Dea e o Al tiraram quando foram ao Brasil passar Natal e ano novo. A Dea é uma amiga da ECA que foi pros States se casar com o Al, que é americano. Parece que a visita foi ótima, a julgar pelas fotos e, principalmente, pelos comentários do Al. Não sei se é o amor dele por ela, ou da família dela por ele, mas em geral ele falou muito bem do Brasil - das pessoas, da comida e até do encanamento! Vendo um estrangeiro falar tão bem do Brasil me fez pensar nas coisas boas de lá, e a saudade apertando enquanto eu via as fotos das comidinhas, praia, cidade pacata do interior, tartarugas (eu tenho 3), amigo secreto em família, amigos da ECA reunidos num bar.
Quando eu terminei de ver as fotos, uma música estava tocando na minha cabeça: "Alguma coisa acontece no meu coração, que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João..." Ah, que saudade de ti, Sampa. O que será que tem de especial nessa cidade grande, suja, congestionada, perigosa, tão rica e tão miserável? Acho que são os vários mundos que existem nela. Gente de todos os cantos do país e do mundo, "tribos", ruas especializadas em alguma coisa, comida de rua e restaurantes de luxo, vendedores ambulantes e shopping centers. Tudo junto? Não, tudo separado. Cada qual no seu mundo, cada atração com seu público. Pelo menos esse é o status que se tenta manter. É uma convivência na aparência e por mais hipócrita que seja, de uma certa forma funciona.
Reformulando, ah, que saudade do meu mundo lá em Sampa.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Relatório

Primeiramente, feliz ano novo! Infelizmente as férias para mim foram curtas e já acabaram faz tempo. Hoje, ao sair de casa pela primeira vez depois de 3 dias, eu senti o inverno na pele. Mais especificamente nos pés. Depois de dirigir a scooter por 15 minutos no vento, eu pisei no chão e não senti nada. Meus dedos estavam dormentes. Fui à biblioteca, que estava quentinha, andei, subi escadas, mas nada da sensibilidade voltar aos pés. Eu sempre fui assim, pé-frio. Nesses dias de inverno o difícil é pegar no sono com os pés gelados.
Bom, pelo menos eu não tenho que sair de casa todos os dias. Eu tenho uma matéria só na faculdade e dou aulas de Português 3 vezes por semana. Agora estou escrevendo meu sotsuron (TCC) que tem que ser entregue no último dia do mês. O tema é "Compreensão internacional e a educação das crianças estrangeiras". Meu foco é 1. no problema de adaptação das crianças brasileiras às escolas japonesas e 2. no conteúdo de "compreensão internacional" introduzido no currículo nacional para estimular o contato com as culturas de outros países. O que eu quero mostrar é se esse novo currículo ajuda a melhorar o entrosamento entre alunos estrangeiros e alunos japoneses, e por que é importante investir nessa minoria.

Depois que esse pesadelo de escrever um TCC em japonês terminar, é hora de pensar na mudança. Por enquanto nada foi definido, mas provavelmente eu me mudarei pra Tóquio. Em junho do ano passado eu consegui uma vaga em uma agência de viagens japonesa, para começar a trabalhar em abril deste ano, depois de me formar. Só que aqui no Japão, empresas como essa, que têm matrizes espalhadas pelo país, só informam o local onde os novos funcionários vão trabalhar com 2 ou 3 meses de antecedência. E nem sempre, ou quase nunca, é possível negociar. Foi o meu caso. Ah, é, eu já fiquei sabendo que querem que eu trabalhe em Osaka, porque quando eu perguntei pro RH se eu poderia ser mandada para Tóquio, eles disseram que não, que o meu local de trabalho já tinha sido definido... :(

Esse ano vai marcar o fim da minha vida de estudante. Finalmente. Tudo é mais fácil, com certeza, mas eu não gosto de estudar. Mãe, desculpe desapontá-la, mas eu parei de gostar quando saí do colégio. Para marcar o fim dessa que foi a maior parte da minha vida, eu bem que queria pelo menos uma cerimônia de formatura onde eu pudesse vestir aquela beca feia e receber o canudo sob uma salva de palmas de pessoas que não sabem que eu nem estudei para passar. É claro que a festa seria ainda mais importante, uma oportunidade de me empetecar, me divertir e bebemorar. Mas aqui no Japão a formatura não é tão importante. Não há entrega de canudos; o representante da classe recebe um diploma em nome de todos e acabou. Festa, se houver, geralmente não passa de um jantar regado a muita bebida, só que bem mais caro que todas as festas dos tempos de faculdade. Afinal, é a formatura. A diversão pode ser pouca, a cerimônia injusta, mas um japonês (pelo menos uma japonesa) que se preze tem que manter as aparências (e só). As mulheres se vestem de hakama, uma saia longa vestida por cima do quimono, enrolam as madeixas e enfeitam a cabeça com flores artificiais gigantescas. Eu também... :p Esperem para ver.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Welcome to the jungle!

Bem-vindo à selva! Onde? Minha casa!
Meu apartamento fica no meio da montanha. Aqui no Japão, isso significa primeiramente longe das linhas de trem, mas no meu caso tem muito mais implicações. Eu vivo mais perto do que resta de natureza que o restante da população que vive perto do mar e da civilização. O que me preocupa nessa natureza é a fauna, a parte que se move, rasteja, voa, pica, é nojenta e perigosa.
Hoje eu vi um morcego pela primeira vez na vida. E ele, digo, eles (eram dois) estavam no hall do meu elevador, aqui no décimo andar. No verão passado eu fui visitada por algumas centopeias asquerosas que eu nunca tinha visto no Brasil. Elas são grandes, venenosas e se movem mais rápido do que você gostaria.


Na faculdade eu já vi umas lagartixas com rabos multicoloridos, além de javalis, que descem as montanhas no verão para fuçar os lixos em busca de comida.
Há pouco tempo, eu vi duas cobras na mesma semana. Uma bem pequena e toda dilacerada (eu sei, eca!) no estacionamento do prédio e a outra, que devia ter mais de um metro, recém-atropelada aqui perto de casa.
"É verdade que no Brasil tem anaconda?!" perguntam muitos japoneses. Eu sei que tem, na Amazônia, mas em São Paulo eu nunca vi... Também nunca vi javalis nem morcegos nem centopeias-monstros, principalmente perto ou dentro de casa. Onde é que eu vim parar?!

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Cigarrinho e cafezinho

Parece uma ótima combinação, né? Eu não fumo, então não sei, mas pelo que eu vejo - e, principalmente, inspiro -, os japoneses são loucos por um cigarrinho acompanhado de um cafezinho.

Os coffee shops, que se pode encontrar em qualquer esquina, são frequentados por 10 em cada 10 fumantes japoneses engravatados. Em algumas lojas é proibido fumar dentro do estabelecimento, em outras há área de fumantes e de não-fumantes e em algumas, como eu descobri recentemente, o "tabaco", como é chamado o cigarro em japonês, é liberado.

Como já mencionei, eu não fumo. E não gosto do cheiro de cigarro, salvo em baladas, e não me perguntem o por quê da bizarra exceção. Como se não bastasse o cheiro, ter que enfrentar aquela cortina de fumaça na cara, ainda mais durante uma refeição, sinceramente, me dá nos nervos. Ah, é claro que eu tenho amigos fumantes! Claro também que eu saio com eles e não protesto contra o cigarro. Mas o fato é que meus amigos fumantes não soltam fumaça na minha cara... É egoísta, eu sei, e algum blogger por aí deve estar reclamando dos cigarros dos meus amigos, mas é assim que as coisas funcionam, por enquanto.

Bem, mas tudo isso foi para expressar minha posição em relação ao cigarro em si e aos fumantes. Voltando agora ao café, eu disse que recentemente descobri que alguns coffee shops não tem restrição contra o fumo. Como eu descobri isso? Da maneira mais desagradável possível: fumando por tabelinha até terminar meu caffe latte e poder dar o fora. Apenas dez minutos de defumação e eu já estava "inspirada" o suficiente para uma entrevista de emprego que eu teria em 15 minutos. O pior é ser vista - ou cheirada - como fumante.
Esse costume dos fumantes de frequentar cafés me é desfavorável... Eu detesto cigarro, mas adoro fazer hora num café. Com essa falta de bancos públicos e a necessidade de um ar condicionado praticamente o ano todo, os cafés têm os assentos mais acessíveis e confortáveis à disposição quando se precisa esperar ou descansar os pés. E o melhor de tudo: eles até servem café!

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Instinto Materno

Não posso afirmar nada a respeito do assunto, porque nunca estudei sobre isso. Só quero registrar algo que pensei hoje.

Enquanto eu escrevo esse post, tá passando na Discovery um programa sobre os instintos humanos de auto-defesa e de salvar alguém em perigo. Nos EUA, uma mulher passeando a cavalo com o filho e algumas outras crianças salvou o filho que estava sendo atacado por um puma. Ela gritou, chamando a atenção do animal, quebrou um galho e o enfrentou. Enquanto isso as outras crianças foram procurar ajuda, levando o garoto ferido. Quando encontraram a mulher, depois de 2 horas, ela já estava gravemente ferida, mas só morreu depois de ouvir que o filho estava bem.

Você já deve ter ouvido alguma história de uma mãe que levantou um carro ou um portão automático para salvar o filho. Verdade ou não, o ser humano pode sim revelar uma força antes desconhecida em caso de perigo extremo, pra si próprio ou outra pessoa. No caso das mães, dizem que isso é instinto materno. Mas "instinto" é para ser algo inerente ao ser humano, certo? Bom, se nem todas as mães possuem instinto materno, será que esse instinto existe mesmo?

Hoje de manhã gastaram um programa inteiro contando a vida de uma japonesa que estrangulou o filho de 4 anos, abandonou-o num córrego perto de casa e duas horas depois saiu gritando pela vizinhança fingindo estar buscando o filho que havia desaparecido.

Aqui no Japão, infelizmente, essas coisas acontecem toda semana. Pais que matam filhos, filhos que matam pais. Vendo essa realidade, é difícil acreditar em instinto materno. Ou esse instinto está desaparecendo em parte da humanidade. Afinal, se uma mãe tem como instinto proteger o filho, como pode ela mesma espancar e até mesmo matá-lo?